terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Um dia no Futuro com Você

E eu acordava querendo ter certeza que não era sonho. Os olhos ainda pesados, consequência das poucas horas dormidas desde o dia anterior. Não os abri. Fui te farejando que nem bicho. Seu pescoço, sua barba, o vão do seu braço. Era você mesmo. E abri os olhos para ter mais certeza que não era sonho. Com a visão embaçada, vi o branco das duas portas, alinhadamente fechadas. Através delas, não se via o dia – tinha-se apenas noção de como estava lá fora. Raios de luz entravam pelas pequenas frestas, anunciando que o dia já tinha desabrochado. Me desencaixei de você driblando seus braços que sempre querem que eu fique um pouco mais. Mas a luz entrava pelas frestas e eu precisava conferir como estava o dia lá fora.

Levantei sem achar os chinelos. Peguei o seu 45 que sambava no meu pé 37. Quase esbarrei nas taças de vinho, sujas de vermelho tinto, ao lado da garrafa vazia. Resquícios da noite anterior. O cinzeiro, ao lado das garrafas no chão também continha indícios da noite passada. E imagino que, há alguns anos atrás, jamais iria imaginar que vinho, sonzinho, umas tragadas e você fossem ser meu conceito ideal de uma noite perfeita.

Tropecei em um dos brinquedos dos cachorros, que viviam sempre espalhados pela casa. A casa vivia sempre com brinquedos espalhados, babados, mordidos. Só que não por crianças. E sim pelos cachorros, que, ocupavam brilhantemente esse papel na família.

Pensei que deveria lavar o rosto e escovar os dentes, mas precisava conferir aquela luz que vinha da porta. O quarto escuro, dava poucos sinais de que o dia já raiava lindo. Mas eu suspeitava. Os diversos dias passados naquela casa já tinham me ensinado sobre os tons das luzes que entram no quarto. Fazia um dia lindo, eu apostava.

Virei a maçaneta da porta e a luz entrou com toda a força. Fazia um dia lindo, como suspeitava. De dentro, podia ver os cachorros se divertindo correndo atrás de algum inseto e rolando na grama. Eles provavelmente já tinham acordado há horas, mesmo depois de uma noite com interrupções de sono. Cachorro nunca dorme tão ininterruptamente como a gente. Eles são os guardiões da casa, você sabe. Ficam alerta o tempo todo. E a gente, pra compensar, deixa que eles entrem durante o dia e fiquem deitados debaixo da mesa, perto do quentinho do fogão de lenha.



Você ainda dormia, no cantinho da cama, como se eu ainda estivesse lá. Engraçado que, quando a gente gosta de dividir a cama com alguém, a gente perde pra sempre a mania de dormir no meio. Ficamos sempre mais pro canto, respeitando o espaço invisível do outro. Saí do quarto devagar, desci as escadas, abri a porta da cozinha. Os cachorros, pararam a perseguição às borboletas e vieram me dar a lambida matinal. Eu sei, também senti falta de vocês. Vêm pra dentro, vêm.

Coloquei a água pra ferver com açúcar e o pó no coador de pano. É só assim que sei fazer café. Tem que ir com o açúcar junto, se não perde o gosto de café de mãe. Mas sempre com pouco açúcar, e mais pó. A água fervia enquanto olhava da janela os primeiros pézinhos de rúcula querendo crescer. O cheiro da água quente ia afogando o pó de café e unindo tudo numa mistura irresistível. Aquele cheiro de café saindo era meu vício. Me lembrava de casa. Dos inúmeros cafés da tarde.

Enchi duas xícaras, tomei um gole – o primeiro da manhã é sempre impagável – e levei a sua para o quarto. Você já sabia que esse cheiro de café era sinal que eu já estava de pé, faz tempo. Essa foi uma coisa que nunca conseguimos alinhar. Você continuava dormindo tarde e eu acordando cedo. Joguei baixo – fui dando beijinhos enquanto a fumaça do café chegava até você. Bom dia. Fiz café pra gente. Você me puxa pra cama, eu deixo o café esfriando na cabeceira. E a gente encaixa aquela conchinha, daquelas difícil mesmo de explicar. O dia tá lindo lá fora, vamos andando até a cachoeira? Os cachorros, como que se tivessem ouvido, entram em bando no quarto e me ajudam a te acordar com lambidas de bom dia.

Enquanto você desperta, naquele ritmo vagarosamente gostoso e só seu, eu concluo, feliz, que aquilo é um sonho. Daqueles sonhados há tempo. Construídos num longo processo de detalhamento de paixões. Ninguém disse que seria fácil. 

domingo, 22 de janeiro de 2012

No meu carro...

... ainda tinham suas fotos guardadas no porta-luvas, tinha seu perfume impregnado nos bancos, seus sapatos no porta-malas, sua pulseira pendurada no retrovisor, marcas dos seus dedos nos vidros, tinha aquela sua camisa quadriculada que eu tanto amo no banco de trás, no rádio ainda está o nosso cd, onde gravamos todas as nossas músicas preferidas.

 E ali no parta-copos ainda tem o seu copo de café pela metade, cinzas de cigarro por todo o carpete, seu maço de cigarros está jogado sob o banco junto com um bloquinho e uma caneta verde que te dei para fazer seus desenhos, papéis de salgadinhos, doces, garrafas estão dentro daquela sacolinha do mercado em que compramos tudo. E ali no canto tem o adesivo que mandamos fazer, aquele em que uma menina segura a mão de um menino. Somos nós. 

A nossa bagunça ainda está todo contida aqui, nossas lembranças, em cada lugar que olho vejo nós dois. Em cada farol que estaciono lembro quando tentava me distrair e quando o sinal abria você gritava “Abriu, abriu. Vai, vai!”. Lembro de cada coisa, cada gesto, cada palavra, cada segundo com você. Lembro quando tentava formar frases com a placa do carro. FMD69J. Mas nenhuma saia com nexo algum. Mas, me lembro também, que no “jota” da placa você sempre fazia a palavra. Juntos. 

Coisa que não estamos agora, coisas que éramos até demais, coisa que queria que voltasse a ser. Juntos. Eu. Você. Nós.” 


A culpa é sua, ou talvez minha. Não tenho mais aquela vontade de amar. Você destruiu toda aquela esperança que eu tinha no amor. Talvez, eu esteja enganada, a culpa pode ser minha, por ser tão iludida. Antes de você eu não era feliz, mas posso dizer que não era tão triste assim. Antes meu sorriso era de verdade, hoje eu já não posso dizer o mesmo. 


Mas eu não me arrependo de ter te amado, ou de ter deixado você entrar na minha vida, de ter feito parte da minha historia. Dizem por aí, que só começamos a entender a vida, depois de sofrer, depois de quebrar a cara, depois de ter o coração machucado. E é verdade, você me fez doer, mas me fez entender muita coisa da vida. 


Me machucou, mas me ajudou a entender, e aceitar que nada é do jeito que queremos. Por um lado, tenho que agradece-lo por me fazer sofrer, pois isso, me tornou o que sou hoje, me fez amadurecer, mudar. Não sou mais aquela menina ingenua e crédula. Eu cresci.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Amores de Sessão da Tarde


Eu poderia te esperar durante a noite inteira, velar teu sono, aquecer teu corpo, proteger a tua alma. Eu poderia te falar coisas bonitas e te abraçar forte, dizer que tudo vai ficar bem. Eu poderia sangrar em silencio, para garantir tua vida, eu me daria sem nada em troca, te tomaria nos braços e te acolheria como as palavras que um dia serviram de cobertor. 


Eu erraria teu nome de propósito, para ver você louco, me cobrando explicações, me chamando de falsa, vil, traidora. Eu te controlaria, te sufocaria, te remendava palavras na face, para te trazer de volta, inteira, te faria amor, até que sem forças, você adormecesse em meus braços.


Eu suplicaria perdão, chorando feito menino novo. Te mostraria o meu querer, pra que te lembrasse do teu, e quando viesse, que ficasse, que gostasse. Traria do deserto do seu pensamento, o mais lindo jardim já visto e todas as plantas e bichos teriam meu nome.


Destas coisas de amor, do amor sincero existente, te daria tudo, como quem planta semente e fica orgulhoso com o fruto. Eu te cobraria explicações, te daria um tapa, e ao sair da prisão, bateria em tua porta, dizendo ser um mal entendido, que queria que você acordasse, que despertasse pra vida, pra te fazer enxergar, o que de tão claro, borra a visão. 


Eu mandaria um carro de som, com uma musica linda do Belchior te fazendo a maior vergonha na tua rua, aquele tipo de vergonha bonita. Eu sairia do carro escondida, pra dizer que te amo, te pediria em casamento, todos gritariam, aceita, aceita, e com lagrimas você me beijaria e diria sim.


Mas, desses amores de Sessão da Tarde, estou cheia. Não me apetecem mais, os casais simplórios, das propagandas do Magazine Luíza. Eu quero algo real, daqueles que gelam a barriga, que te deixam nervoso, com vontade de sonhar e ser feliz, por estar feliz. Eu ia passar o dia te esperando, e quando a noite finalmente chegasse ia te dizer que estou morta de cansada, mas, que tenho saudades de seu sorriso. No fim das contas, quando a soma bate, tudo que se quer é paz.


Eu te diria, “vem sem medo, pois estou lhe esperando”.